In Blog do Rudá

O Brasil é o país do escapismo. Foge de tudo o que parece complicar a vida ou exigir definição. Pode até ser uma das derivações do famoso “jeitinho brasileiro” que, por sua vez, deriva do escapismo do nosso empresariado em dizer que é a favor do livre mercado e depender de verbas do Estado para sobreviver.

Alguns mais arrogantes e ignorantes afirmam que não existe mais esquerda e direita, como se uma régua, um gradiente ideológico ou programático pudesse ser extinto como a medida matemática da distância entre Belo Horizonte e São Paulo. Podemos até trocar o instrumento ou unidade de medida (de metro por jarda, palmo ou milha), mas a medida de distância estará lá. Assim, posso dizer que o marxismo não tem tanta influência no espectro político de um país, mas a esquerda (desde que exista pluralidade e exista uma força à direita desta esquerda) estará lá.

O conceito de esquerda e direita é comumente indicado como tendo surgido durante a Revolução Francesa e o Império de Napoleão Bonaparte. A primeira divisão se deu entre monarquistas e revolucionários, que se posicionavam na Assembleia Nacional daquele país em bancadas à esquerda e à direita. O deputado Barão de Gauville teria afirmado que os que eram leais à religião e ao rei se sentavam à direita, se apartando dos ataques que vinham à sua esquerda. Mais tarde, já em 1791, a Assembleia Legislativa se dividiu entre “Inovadores” (sentados à esquerda), os “moderados” (postados ao centro) e os defensores da ordem ou do que denominavam “defensores da consciência da Constituição” (sentados à direita).

É verdade que Anthony Giddens escreveu seu “Para Além da Esquerda e da Direita” para defender a terceira via na Inglaterra, mas o fato é que ao ler o texto se percebe que ele defende uma postura de centro o que evidentemente se refere à sua esquerda e à sua direita. Mas, ao mesmo tempo, Perry Anderson publicou “Um mapa da esquerda na Europa Ocidental” (livro publicado em meados dos anos 1990). O fato é que Habermas escreveu sobre a necessidade de revisão da esquerda (livreto do início dos anos 1990, uma década demarcada por esta discussão conceitual) e, no Brasil, João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield escreveram o seu “Por que virei à direita” para dialogar com o seu “A esquerda que não teme dizer seu nome” de Vladimir Safatle (ambos publicados pela Editora Três Estrelas).

Já expus neste espaço que Norberto Bobbio, em meados dos anos 1990, definiu os dois conceitos a partir do binômio igualdade-liberdade. Para este jurista e senador italiano, a esquerda se pauta essencialmente pela defesa da igualdade na humanidade e a mudança da ordem social e a direita, por seu turno, sustenta que a desigualdade é elemento natural entre os seres humanos (em virtude de sua força ou capacidade para o trabalho) e se apega às tradições (daí a sugestão de serem conservadores, conservando a ordem social vigente). Mas, sustenta Bobbio, a direita se apegaria a um conceito afirmativo: a liberdade individual. A liberdade extrema sugeriria o elitismo político (já que alguns são mais preparados e menos indolentes que outros) e a própria desigualdade (alguns seriam mais afortunados e preparados pelo sucesso). Há toda uma discussão entre os italianos se a Deusa Fortuna escolhe aleatoriamente quem será tocado por sua vontade ou se ela é conquistada pelo afortunado, mas isto daria outra postagem, dado que este é o fundamento das teses de Maquiavel.

Bobbio vai além. Sustenta que a distinção entre esquerda de direita não forma propriamente uma reta, mas uma ferradura, dado que os extremos utilizariam metodologias similares, marcadas pelo uso da força. Nas pontas da ferradura estariam os extremos ideológicos, para o autor: o fascismo e os socialismos autoritários. Ao centro estariam os que defendem o sistema político representativo fundado nas eleições. O próprio Bobbio se definia ao centro e elaborou teorias e textos a respeito do social-liberalismo, teses que se aproximam das políticas e práticas empregadas pelo lulismo.

Enfim, se alguém denomina outro de estar ao centro da política nacional, possivelmente estaria à esquerda ou à direita se o país fosse outro e o gradiente partidário ou programático fosse distinto. Mais: nunca esta distinção terá fim na história da humanidade, a despeito de encontrarmos o Paraíso, o Fim da História ou construirmos o Comunismo. Mesmo encontrando a fonte da perfeição, alguns pregarão que são mais iguais que outros e, portanto, precisam impor algumas reformas que destruirão a paz de uma parcela dos iguais para que o sistema funcione. Pode não ser muito racional, mas, acredite o leitor, isto ocorre em muitas localidades do nosso planeta.

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