In Blog do Rudá

Há uma crença generalista que sustenta que os intelectuais criam opinião pública. Os próprios intelectuais colaboraram para promover esta crença, de Karl Mannheim a Gramsci. Na verdade, os dois deram muita ênfase ao conhecimento não teórico para formatação da prática, o que dilui sua responsabilidade nesta história.

O fato é que, no ano passado, fui entrevistado por Heródoto Barbeiro, no seu programa Jornal da Record News. O programa é dinâmico e em cada bloco entra um analista em cena. Comigo, aguardava ser chamado um velho amigo sociólogo, portando seu indefectível cachimbo. Este sociólogo esteve envolvido nos estudos de vanguarda sobre novos movimentos sociais (NMS), a sigla projetada pelos nossos colegas europeus. Portanto, filiava-se aos estudos de Marilena Chauí, Cândido Grzybowski, Francisco Weffort, Eder Sader, entre outros.

Com o ingresso de Weffort no ministério de FHC, esta linhagem de estudos paulistas se desmanchou no ar. Como se fosse um modismo. E se concentraram em algum tema que ficou enclausurado entre eles. Retornaram ao mundo dos “papers” rodados em mimeógrafo à álcool.

Há algo de estranho nesta específica sociologia paulista. Parece renegar as teorias europeias, que fundaram a USP, para se dirigirem às teorias norte-americanas, anglo-saxônicas, aquelas que imaginam que a ação social é passível de interpretação matemática. Aquela que afirma que a democracia paga o que promete (seja lá o que isto quer dizer). Aquela que centra suas análises nas instituições, como se fossem atores sociais autóctones, mônadas que pairam sobre o mundo dos mortais.

A análise de meu amigo me surpreendeu. Repetia manchetes de jornais, sem mais nem menos. Não apresentou nenhuma sofisticação ou novidade. Gramsci o denominaria de “intelectual tradicional”. Tive a nítida impressão que esta camada de intelectuais paulistas claudicou. Se entregou ao fluxo das águas das superfícies. Abandonou qualquer papel social mais relevante. Se contenta em ser analista político de jornais televisivos que dispõem menos de 15 minutos para uma fala, entrecortada de sensacionalismo e blague.

Eu não consigo compreender tal motivação. Todos os que enveredaram por este caminho diminuíram consideravelmente sua importância social e acadêmica. Todos. Não produzem nada de relevante, não são citados, não parecem mergulhados na sociedade em que vivem.

Esta certa sociologia paulista parece ter ingressado na lógica de Temer.

Recent Posts
Comments
  • Almir (Panorâmica Social)
    Responder

    Essa sociologia paulista não é a mesma que historicamente construiu uma imagem negativa do “populismo” para contrapor uma espécie de revanche contra Getúlio Vargas?

Leave a Comment

Start typing and press Enter to search