In Blog do Rudá

A composição dos governos petistas segue a lógica da partilha entre partidos e correntes internas. Neste segundo mandato de Dilma Rousseff como presidente da República, parte significativa da imprensa sugeriu que a corrente majoritária do PT, Construindo um Novo Brasil (CNB, antiga Articulação dos 113), teria perdido espaço para outras correntes.

As correntes internas, oficialmente denominadas “tendências”, sempre estiveram presentes no PT. Os motivos foram vários, a começar pelo momento de sua fundação. No final dos anos 1970, a proposta de criação de um partido de trabalhadores (incluindo esta denominação) já circulava por muitos agrupamentos trotskistas. Dentre tantas organizações, é possível citar a orientação da Liga Operária que, em 1973, num encontro de exilados brasileiros na Argentina, sustentava a necessidade de criação de um partido amplo, de massas, democrático e socialista. Já existia, para se ter nítida a experiência mundial de organização de partidos com a denominação do PT, o Socialist Workers Party, dos Estados Unidos (fundado em 1938 e que rompeu com o trotskismo em 1990) e do Partido de los Trabajadores de España (fusão, em 1979, do Partido del Trabajo de España com a Organización Revolucionaria de los Trabajadores). Mais à frente, outros partidos de trabalhadores foram criados, como o do Uruguai, em 1984, ou o da Costa Rica, em 2012, e o Partido Socialista dos Trabalhadores, da Argentina, todos com orientação trotskista. A sigla Partido Socialista dos Trabalhadores é encontrada em diversos países, além dos já citados, como Colômbia (criado em 1977, de inspiração trotskista), México (1975), Panamá (1983, de inspiração trotskista), Peru, Reino Unido.

No caso brasileiro, desta indicação da Liga Operária, surgiu, em 1978, o Movimento Convergência Socialista, com a intenção de criar este partido, tendo Mário Pedrosa como inspiração. A Liga Operária, por seu turno, era composta por militantes da Ação Popular, do Partido Comunista Revolucionário e pelo Movimento Nacionalista Revolucionário. Em 1978, outros agrupamentos de esquerda, como o Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP) já sugeriam a criação do PT, como partido independente e é deste período a primeira manifestação pública para sua criação, realizada no Congresso dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo, em Lins.

Por este breve lembrete é possível compreender o grau de fragmentação da esquerda brasileira, mergulhada em estruturas de resistência e combate à ditadura militar e que procurou se reconstruir a partir de 1974, após os grupos armados serem dizimados pelos órgãos de repressão.

O PT não nasceu apenas pelas mãos das organizações trotskistas, nem mesmo pelas mãos exclusivas de organizações comunistas (não trotskistas), mas a experiência de fragmentação da esquerda brasileira foi um ingrediente importante para a formação inicial de uma espécie de federação de coletivos de esquerda no interior de um amplo guarda-chuva legalizado.

Em 1986, o IV Encontro Nacional do partido reconhece o direito de tendência. Ocorre que, este é o momento exato em que José Dirceu inicia uma forte campanha pelo enquadramento (ou expulsão) da Convergência Socialista e PRC (que tinha Genoino como sua principal liderança), em especial. Em 1991, durante o Primeiro Congresso Nacional do PT, registraram-se 16 tendências internas.

Tendências PT

Historiograma publicado no livro “História do PT” (Ateliê Editorial, 2011), do professor Lincoln Secco

As principais tendências:

CNB

A tendência majoritária é a CNB, ou Construindo um Novo Brasil. Esta é a tendência dos mais conhecidos líderes petistas, como Lula e José Dirceu. Tem origem na Articulação (em 2000 alteraria sua denominação oficial para Campo Majoritário, mas até hoje mantém o nome Articulação), originalmente Articulação dos 113, que nasceu, por sua vez, do Manifesto dos 113. Em 1983, após a acachapante derrota eleitoral de 1982, centro e treze dirigentes petistas assinaram um manifesto que procurava superar o impasse entre se diluir numa frente liberal, se constituir numa proposta socialista sem trabalhadores ou ser um partido vanguardista. Um documento, portanto, que procurava dividir águas com as organizações, principalmente trotskistas, que motivaram inicialmente a criação do partido.  O documento reafirmava a necessidade de vitalizar os núcleos de base com caráter deliberativo e a formação política e cultural dos militantes, com foco prioritário de atuação nos movimentos sociais. Após a eleição de 1989, esta tendência passou a propor a ampliação do campo de alianças político-partidárias, até atingir seu objetivo em 2001, com o arco de alianças que disputaria as eleições presidenciais do ano seguinte. Em 2009 voltou a ter maioria no Diretório Nacional do PT e a dirigir 22 dos 27 Diretórios Regionais do partido. Dentre seus articuladores nacionais, destacam-se Humberto Costa, Marco Aurélio Garcia, Maria do Carmo Lara, Paulo Frateschi, Ricardo Berzoini, Rochinha, Luiz Dulci, Benedita da Silva, João Vaccari, José Dirceu e Lula.

Articulação de Esquerda

Tendência criada em 1993 como dissidência do Campo Majoritário, tendo Valter Pomar como seu principal expoente. Seguindo a tradição petista iniciada pelo Manifesto dos 113, a Articulação de Esquerda (AE) lançou seu manifesto denominado “A hora da verdade”, e se consolidou (entre 1993-1995) como força majoritária no diretório nacional do PT. Sua principal crítica foi o que intitulou de “giro para a direita” da cúpula da Articulação dos 113 que se materializaria no apoio ao governo Itamar, na defesa do parlamentarismo e crítica à palavra de ordem “Fora Collor”. Em agosto de 1993, esta corrente se alia à Democracia Socialista (outra tendência interna, de origem trotskista) e forma a chapa “Opção de Esquerda” que somada à chapa “Na Luta PT”, constituem maioria absoluta no diretório nacional. Rui Falcão, dirigente da Articulação de Esquerda, é eleito vice-presidente nacional da sigla (assumindo a presidência em 1994). No encontro nacional seguinte, alguns dirigentes próximos ou que participavam da AE (Rui Falcão, Cândido Vacarezza e Silvinho, que ficaria famoso mais tarde) se unem novamente a Zé Dirceu e vencem as eleições internas com uma margem minúscula de votos. Por uma decisão precipitada, a AE decide não compor a direção proporcional e a antiga Articulação toma toda executiva nacional. A partir daí, a antiga Articulação volta a comandar o PT até 2005. Arlindo Chinaglia abandona a AE em 1997, por discordar da criação de uma setorial sindical (defendia a permanência desta tendência na Articulação Sindical, já existente). Um novo racha ocorre neste mesmo período em função de militantes (que formariam a Consulta Popular) que não concordavam com o foco no processo eleitoral e institucional.

Mensagem ao Partido

Em 2005, Tarso Genro, em meio às denúncias que começavam a envolver o então ministro Zé Dirceu em casos de corrupção, rompe com o Campo Majoritário (Ex-Articulação). Deixou público, na oportunidade, suas críticas à Articulação Unidade na Luta (que dirigia o Campo Majoritário e que, hoje, se denomina CNB). Na verdade, havia um movimento nesta direção protagonizada por outra tendência petista: a Democracia Socialista (DS). A DS incorporou, em 2005, duas correntes regionais (Alternativa Socialista e Movimento Socialista) e se alia com alguns expoentes petistas (casos de Paul Singer, José Eduardo Cardoso, Tarso Genro, Fernando Haddad, Elói Pietá, Eduardo Suplicy e Marcelo Deda) para lançar a tese “Mensagem ao Partido”. A tese destacava a necessidade da recuperação ética do PT e propôs a “revolução democrática” e o “republicanismo” para a construção da sociedade socialista. A DS rompia, a partir daí, com a Quarta Internacional e atraía outros intelectuais petistas, como Marilena Chauí e Maria Victória Benevides.

A DS, comandada por Raul Pont e Miguel Rosseto, e tendo dirigentes nacionais e intelectuais como Juarez Guimarães (UFMG) e Joaquim Soriano como expoentes históricos (agora tendência interna do PT), concentra-se na gestão pública e na construção do que seria a governabilidade mais à esquerda como seus temas prioritários no interior da Mensagem ao Partido.

Em muitos casos, esta tendência interna vem sendo utilizada como “válvula de escape” para lideranças partidárias em ascensão com dificuldades para superar lideranças regionais da antiga Articulação. Este é o caso de Minas Gerais, onde a chapa vencedora do PED de 2013 foi a da Mensagem ao Partido – Minas se Levanta, que fechou a apuração com 25,73% dos votos. Além da DS, a chapa foi composta pela ex-prefeita de Contagem (e deputada estadual eleita) Marília Campos e a prefeita de Governador Valadares, Elisa Costa, além do deputado Reginaldo Lopes (braço direito do governador eleito Fernando Pimentel, que rompeu com a CNB em 2008), e os deputados estaduais Adelmo Leão e Pompílio Canavez[1].

A “Mensagem” vem protagonizando críticas públicas aos processos internos de definição política do PT e às políticas adotadas pelo governo Dilma. Em agosto de 2013, um mês após o vendaval dos protestos de rua, explicitou suas críticas através de um documento em que afirmava que setores do PMDB – absolvendo o vice-Presidente Michel Temer e setores ligados a ele – dificultavam a implantação da necessária agenda de mudanças, sugerindo a promoção de uma segunda geração da revolução democrática (termo muito empregado por esta tendência e pela DS). Destaca a reforma política e a democratização dos meios de comunicação, assim como consultas públicas sobre orçamentos e fundos públicos, como base desta nova agenda.

Logo após o anúncio de Joaquim Levy para o comando da política econômica do segundo mandato de Dilma Rousseff, Tarso Genro criticou duramente sua indicação, sustentando que não preenchia o perfil aprovado pelas urnas e com o interesse do povo de continuidade da política econômica adotada por Guido Mantega.

Democracia Socialista

Na fundação da Democracia Socialista como organização trotskista contou, originalmente, com a participação de militantes do Partido Operário Comunista (POC) e do Comando de Libertação Nacional (COLINA), mas na sua maioria, agregou militantes de organizações do Rio Grande do Sul e Minas Gerais que eram conhecidos pela abreviatura O (de “organização”). Seu surgimento tem relação com o movimento estudantil do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais (correntes Peleia e Centelha) e do movimento sindical dos bancários, dos trabalhadores da educação e dos metalúrgicos. Dirigiu a UNE com Milton Pantaleão (gestão 1987/88), Darlan Montenegro, Tiago Silva (gestão 2009-2011), Clarissa da Cunha (gestão 2011-2013) e Mitã Chalfun (2013-2015). A DS ainda tem forte presença no movimento feminista através principalmente da Marcha Mundial das Mulheres.

Entre 2003 e 2005, parte de seus integrantes funda o PSOL e o grupo majoritário na DS rompe seus vínculos com o Secretariado Unificado da Quarta Internacional e reorienta-se internamente no PT, passando a defender uma estratégia conhecida como “revolução democrática”. A Mensagem ao Partido lançou candidatura própria no PED 2007, 2009 e 2013. Antes disso, a DS já havia lançado candidatura própria no PED 2001 e 2005.

Movimento PT

Vinculado originalmente a Marta Suplicy, Maria do Rosário, Geraldo Magela e Arlindo Chinaglia, tem como expoente a famílias Tatto, de São Paulo. Alia-se a outras tendências, como “Novos rumos para o PT” e “PT de Lutas e de Massa”. Sua crítica maior se aferra ao que denomina burocratismo e a falta de democracia interna das correntes tradicionais petistas. Recentemente, o descontentamento de Marta Suplicy com o governo Dilma Rousseff e a sua intenção de ser candidata a Prefeita de São Paulo em 2016 (contrariando a reeleição do atual prefeito Fernando Haddad) vem alimentando boatos de sua transferência do PT para o PMDB.

O Trabalho

Tendência com orientação trotskista, tendo como principais líderes José Carlos Miranda e Markus Sokol, que divergiram recentemente.

[1] São muitos os expoentes de peso que integram esta tendência interna que atrai setores moderadamente críticos à tendência majoritária do PT. Entre elas: Alessandro Molon (Deputado Estadual do RJ), Ana Carepa (ex-governadora do Pará), André Singer, Arlete Sampaio (MDS), Carlos Minc, Dr. Rosinha (Deputado Federal PR), Eduardo Valdoski (Juventude PT), Eloi Pietá, Estilac Xavier (ex-Casa Civil), Gilmar Machado, Hamilton Pereira, Guilherme Cassell (ex-Ministro MDA), João Coser (ex-prefeito de Vitória), João da Costa (ex-prefeito de Recife), Jorge Bittar, Margarida Salomão (ex-reitora UFJF), Moema Gramacho (ex-prefeita de Lauro de Freitas/BA), Paul Singer, Paulo Vannuchi, Pepe Vargas, Walter Pinheiro, Antonio Carlos Biscaia, Carlos Neder, Tatau Godinho e Nabil Bonduki.

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