In Blog do Rudá

Imagine que você vive num país que o presidente da Câmara de Deputados abre um processo de impeachment da presidente da República e, dias depois, é afastado pela mais alta Corte do Judiciário brasileiro por obstrução das investigações sobre seu envolvimento com corrupção. Não apenas do cargo de direção, mas do próprio mandato de deputado federal. Imagine que o processo caminha e a presidente da República é afastada temporariamente para que o processo de julgamento do impeachment transcorra sem qualquer influência política externa daquele que será julgado nos próximos dias. O vice-presidente assume interinamente o cargo da presidente afastada e, em poucos dias, é condenado por corrupção eleitoral, impedido de se candidatar a qualquer cargo eletivo no próximo pleito, que está programado para ocorrer em 2018.

O vice, agora presidente interino deste país, destitui todo ministério que até então era seu governo e dá posse a quem era oposição declarada a este governo que ele compunha.

Imagine que mais de sete desses novos ministros são acusados de crimes ou já são réus em ações judiciais por crimes piores que os cometidos pela presidente afastada.

Agora, tente imaginar que se trata de um filme B e acompanhe as principais medidas deste novo governo durante sua primeira semana de vida.

O ministro da Indústria, Comércio e Serviços admite em entrevista que entende muito pouco sobre indústria nacional. Trata-se de um bispo de igreja neopentecostal (Igreja Universal), Marcos Pereira.

O Ministério da Cultura é extinto e sua estrutura é incorporada pelo Ministério da Educação. A reação dos artistas brasileiros é de tal porte (com ocupação de prédios do Ministério e da fundação nacional para a cultura em oito Estados brasileiros) que o presidente interino decide recuar e anunciar que criará uma Secretaria Nacional de Cultura. Novos desmentidos sugerem que não será criada esta Secretaria. Finalmente, começam a vazar recusas de artistas e intelectuais para assumir esta pasta: a atriz Bruna Lombardi; a cantora e coreógrafa Daniela Mercury; a antropóloga Cláudia Leitão; a coordenadora do curso de pós-graduação da Fundação Getúlio Vargas, Eliane Costa; e a apresentadora de televisão, Marília Gabriela.

Cláudia Leitão chegou a postar nas redes sociais sua recusa, que reproduzo a seguir:

“Acabo de ser sondada para assumir a Secretaria Nacional da Cultura dentro do MEC, no Governo Temer. Respondi com um sonoro “não”! Espero que nenhuma mulher aceite esse convite e dessa forma não contribua para a transfiguração do MinC num apêndice do MEC. Continuemos a nossa luta. Mobilizemos o país! Não à extinção do Ministério da Cultura! Viva a cultura como eixo estratégico para o desenvolvimento brasileiro!”

Eliane Costa fez o mesmo:

“Acabo de ser sondada para a tal Secretaria de Cultura que pretende substituir o Ministério da Cultura. Como a sondagem foi feita por pessoa do meio cultural por quem eu tenho respeito, não pude me aprofundar na resposta. Disse apenas que não trabalho pra governo golpista. Nem serei coveira do MinC. Já se viu isso? Depois dessa só me falta agora ser convidada pra ser comentarista de política da Globonews… ‪#‎FICAMinC!”

Os movimentos incertos e imprecisos do novo governo continuaram.

O novo ministro da Saúde, Ricardo Barros, resolve declarar que o programa nacional de saúde pública, o SUS, deveria ser reduzido. No mesmo dia, recua e afirma que repensou sua proposição. Em seguida, anuncia a redução de 10 mil médicos no programa “Mais Médicos”.

O ministro da educação, Mendonça Filho, sugere publicamente que as universidades públicas poderão cobrar mensalidades de seus estudantes para, logo depois, recuar.

O ministro das Cidades, Bruno Araújo (PSDB-PE), decide revogar portaria para contratação da construção de 11 mil casas do programa Minha Casa, Minha Vida.

No programa divulgado por Michel Temer intitulado “Uma Ponte para o Futuro”, o presidente interino propõe a extinção da obrigatoriedade (ou vinculação orçamentária, como define a Constituição Federal) dos gastos públicos com educação e saúde. Também propõe o fim da indexação do salário mínimo, a principal política de redução da pobreza no Brasil na última década.

O Ministério das Relações Exteriores decide publicar uma cartilha para a comunidade gay de brasileiros que reside no exterior, sugerindo que seja discreta.

O dólar dispara. Ocupações de escolas públicas e de prédios públicos do extinto Ministério da Cultura se multiplicam país afora. Movimentos sociais e organizações populares aceleram reuniões para organizar a resistência a este governo. Somente 8% dos brasileiros aprovam o governo do presidente interino.

O presidente interino indica André Moura para ser líder do governo no Congresso. Moura é réu em três ações no Supremo Tribunal Federal, a mais alta Corte do Judiciário brasileiro, aliado do ex-presidente da Câmara de Deputados afastado recentemente e já foi condenado no seu Estado de origem (Sergipe) por improbidade administrativa. Imediatamente, o presidente do Senado, do mesmo partido do presidente interino, e três partidos aliados do governo provisório, criticaram duramente esta nomeação.

Este novo governo não possui um homem negro e nenhuma mulher no seu primeiro escalão. Algo que gerou importante reação dos movimentos de luta pelos direitos civis no Brasil.

O que você pensaria ou sentiria após imaginar este governo? E se fosse seu país, o que sentiria?

Vou ajudá-lo: o único sentimento possível para pessoas corretas e maduras é vergonha.

Michel Temer dirige, há pouco mais de uma semana, o governo mais confuso, reacionário, autoritário e despreparado de toda história republicana do Brasil.

Não por outro motivo, o Senado aprovou abertura de consulta pública sobre a possibilidade de antecipação das eleições presidenciais (previstas para 2018) para este ano.

Triste Brasil. Remete-nos à poesia de Gregório de Matos sobre a primeira capital de nosso país, em pleno século XVI. Parece que estamos presos ao passado, pelas mãos da elite econômica e política de nosso país. Diz a poesia:

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante

Estás e estou do nosso antigo estado!

Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,

Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,

Que em tua larga barra tem entrado,

A mim foi-me trocando e tem trocado

Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente

Pelas drogas inúteis, que abelhuda

Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh quisera Deus que de repente

Um dia amanheceras tão sisuda

Que fora de algodão o teu capote!

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Comments
  • Lídia Leal
    Responder

    Estava esperando o seu texto para esse momento. Disse tudo: que vergonha, é vergonhoso e triste.

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