In Blog do Rudá

São quase 4 da madrugada, o que me dá tempo e o silêncio para especular sobre nossa política maluca (o que me lembra o título de um livro de Tom Peters: “Tempos Loucos Exigem Organizações Malucas”).

A primeira observação é sobre o erro do impeachment. Foi uma aposta muito alta. Não há comparação, em termos de análise, entre a queda de Collor e de Dilma/Lulismo. Collor era um outsider e não tinha base social ampla e histórica atrás dele. Dilma tinha o PT, Lula e uma ampla aliança histórica que se horrorizava com o que ela fazia (uma outsider para o PT, mas criação de Lula para o público externo) e tinha o recall de Lula para o eleitor pobre.
O impeachment foi uma aposta de todas as fichas numa única jogada. Algo muito arriscado em política. Normalmente, se revela uma vitória de Pirro. Isto já havia ocorrido, ironicamente, com a própria Dilma: fez uma campanha de desconstrução de Marina e Aécio, plantou o ódio por parte dos seguidores dos dois e acabou se isolando.
Paradoxalmente, quem se alimentou deste exagero de campanha dilmista, caiu no mesmo bueiro e foi para o impeachment.
O mais impressionante é que a Globo saiu à frente de tudo (“mais realista que o rei”, diria minha mãe). Foi muito longe, mais que a escatológica Veja que estampou uma capa incriminando Aécio Neves, o que confundiu gregos e troianos.
Esta aposta aloprada não parece ter relação com a cultura ou o “espírito” brasileiro, sempre tendendo ao equilíbrio ou um pastiche de paz social. Não há outro motivo para a esbórnia do Carnaval terminar numa quarta-feira de cinzas. Sem pouso tranquilo.
Agora, Lula aparece no topo. Seguido, lá embaixo, por Bolsonaro. Todos golpistas em queda livre. Foi ou não uma aposta exagerada e sem sentido?
Sem Lula, o jogo se embaralha ainda mais. Explico melhor tentando entender o ideário político dos pobres.

A pista para entender este peculiar eleitor está na última pesquisa Datafolha. Por qual motivo 10% do eleitorado lulista transferiria seu voto para Marina em caso de impedimento do ex-Presidente? Porque Marina tem a cara dele, do eleitor pobre: é sofrida e foi sempre sacaneado pelo poder, inclusive, quando era ministra de Lula. É ainda mais próxima ao eleitor médio que Ciro Gomes. O que significa que o eleitor lulista (pobre e de baixa escolaridade; o de alta escolaridade fica com Bolsonaro, como a mesma pesquisa revela) não vota por ideologia, mas por identidade e esperança.
Muitas pesquisas (Ibope, Data Popular, Fundação Perseu Abramo) indicam que este eleitor pobre é conservador, ou seja, não gosta de muita agitação e ações violentas ou agressivas. Quer paz e valoriza a ordem. Não deixa de ser contraditório: é contra o aborto, mesmo tendo vários casos na família; adora a família, embora não seja raro trair a primeira e constituir uma família paralela; desconfia do patrão, mas deseja ser um. Este binômio – ordem e esperança – faz deste eleitor alguém que, na atual geleia geral da política nacional, fique com o certo: Lula, já testado e sabido.

O que nos faz retornar à aposta aloprada da elite econômica e dos partidos oportunistas deste país (PMDB e PSDB, além dos satélites de sempre). Lula é o político mais popular do Brasil porque, no fundo, pensa como ele. Atua dentro da ordem, quer a estabilidade (nenhuma forte ruptura com a ordem, portanto) e quer o sucesso (sempre incluindo sua família). A pesquisa do IBOPE de 2006 que indicava que 75% dos brasileiros admitiam que seriam corruptos se estivessem no governo (para ajudar alguém de sua família ou ente querido) não deixou dúvidas sobre este tema.

Assim, chegou no ponto final que me assalta a imaginação e a premonição (ainda congeladas): sem Lula, o que restaria? Um caos, outra roleta russa. Tudo seria possível porque o eleitor não teria a quem recorrer. Marina? Parece, até aqui, uma política fadada a assustar no primeiro turno das eleições e estacionar o carro. Depois da eleição, seu comportamento se repete: parece andar em ponto morto, de vez em quando o carro tosse para sumir do retrovisor logo adiante. Seria Bolsonaro? Mas só se for no voto escracho porque o ódio que destila não se relaciona com o sentimento popular que citei acima (a ordem, o equilíbrio e o pastiche de paz).

Nossas elites, principalmente a econômica, não parecem primar pelo bom senso e o equilíbrio. Está mais para roleta russa cotidiana. O que não me dá tranquilidade para afirmar que não cometerão novo erro. Um novo erro seria embaralhar todo o tabuleiro novamente. E não estou citando a revogação da eleição de 2018 que, até o momento, parece uma tese conspiratória para trabalhar o ódio de quem se sentiu lesado pelo impeachment e a tomada de poder pelo que há de mais ardiloso e anti-popular na nossa política. Antes que alguém afirme que estou exagerando, basta relatar como é evidente o descaso com a vida e a formação dos mais pobres. O bloco que tomou o Estado em suas mãos não se cansa de afirmar, sem se ruborizar, que a população precisa entender que é necessário sacrifica-la com força e sem dó. Somente um lobotomizado vai ao cadafalso sorrindo. Mas é isso que sugerem diariamente.

Em suma: o bloco que está no poder parece sem saídas. Globo à frente – talvez, porque seja a organização mais despreparada politicamente de todas que se envolveram com o impeachment – exagera cada vez mais, edita sem convicção, prega uma caça às bruxas cada vez mais alegórica. Como retornar ao ponto de equilíbrio depois que você passa o risco imaginário que traçamos no chão para a vida não ficar insuportavelmente bélica?

Marina não é uma aposta, mas uma sinalização, uma espécie de revelação. Somente 10% dos eleitores lulistas transfeririam seu voto para ela. Nada mais. Mesmo assim, é a que apresenta maior potencial para se identificar com este eleitor saudoso. Se 10% é o maior potencial, fica nítido que os outros não se revelam alternativa ao eleitor pobre. Assim, a roleta russa da retirada de Lula seria mais um erro grosseiro, jogando o país no precipício. Com Lula, a situação também é, no mínimo, incômoda para esta elite precipitada e irracional: depois de estapear o líder petista, teria que voltar ao beija mão.

Estranho este país, não?

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